No antigo lugar de Porco, hoje Aldeia Viçosa, no concelho da Guarda, vai cumprir-se novamente uma tradição com quatro séculos de história: o Magusto da Velha, celebrado todos os anos a 26 de dezembro, no dia seguinte ao Natal. A festa, singular no panorama português, volta a reunir população e visitantes para preservar um legado que atravessou gerações.
A origem deste costume remonta a uma doação feita por uma mulher abastada, cujo nome se perdeu no tempo e que ficou conhecida simplesmente como “a velha”. Em 1698, foram lavradas as escrituras que formalizaram o seu gesto: a benfeitora estabeleceu um compromisso com a Igreja local, deixando a obrigação de fornecer cinco meios de castanha e cinco alqueires de vinho “pela alma da velha”. O documento determinava ainda que, com essas dádivas, se realizasse no mesmo dia um magusto aberto a toda a comunidade, seguido da recitação de um Padre Nosso na igreja pela sua alma.
Este ano, a Junta de Freguesia de Aldeia Viçosa apresenta um programa alargado, reforçando o carácter histórico e cultural do evento e dando continuidade ao trabalho de valorização que está já associado à candidatura à Rede Nacional do Património Cultural Imaterial.
No dia 26 de dezembro, pelas 14h30 haverá uma Missa pela Alma da Velha, logo seguido de uma Dramatização do Testamento, pela Associação Hereditas, às 15h30, início do cortejo temático, às 16h00, lançamento de castanhas e rebuçados, convívio com o vinho da Quinta do Ministro, toque a rebate dos sinos, cavaladas e o tradicional Madeiro de Natal e às 17h00, aconchego de Fim de Tarde, com torradas com azeite e creme de castanhas da Velha.
Mantendo viva a promessa secular inscrita nas escrituras de 1698, Aldeia Viçosa volta a celebrar uma tradição única no país, onde fé, memória e partilha se encontram em torno das castanhas, do vinho e da história de uma benfeitora que continua a unir a comunidade quatro séculos depois.